"é preciso ter uma energia, uma curiosidade, uma cegueira... há até um momento, bem no início, em que é preciso saltar por cima de um precipício: se refletimos, não o fazemos" (a náusea)
Trilha sonora de novela em 1979, música de Hermes Aquino, gaúcho egresso da banda Liverpool, virou sucesso nacional. Chegou a ser citada por Raul Seixas em “eu também vou reclamar”. Parece que Aquino lançou um disco, mas brigou com a gravadora e voltou para o Sul, onde se tornou produtor de jingles. É o que sei sobre a música de 27 anos, que ouvi por acaso outro dia, num radinho de pilha. Lúdica e existencialista, belo resgate dos anos 1970.
Tão oposta, que reflete invertido. E invejo. Talvez por acreditar que ela não sofresse desses medos tolos, desses pensamentos fracos que me poluem. Força e coragem que busco. Uma liberdade que quero gritar, mas que sufoca na garganta, e cala. Será que ela não sentia? Sentia sim, quem não sente? A questão é ser mais forte que isso. Acreditar em algo que esteja acima desses medos tolos. Porque ter coragem é diferente de não sentir medo. Encarar sem medo é muito fácil, não tem valor algum. Ter coragem é enfrentar esses medos todos, descobrir algo que faça valer à pena.
Buenos Aires. Como sinto saudade. Aquele quarto de hotel com cama grande para rolar com o par. Saudade de passar 24 horas ao lado do homem que eu amo... Saudade das andanças e descobertas que duravam dias inteiros. Saudade de me perder na Recoleta e acabar descobrindo um Centro Cultural que fez a noite valer o dia. E de tomar sorvete de doce de leite passeando por praças em pleno inverno. Aprender a gostar de carne. Fazer macarrão na cozinha do hotel. Tomar vinho bom e barato. Passear no supermercado. Ser a pessoa mais feliz no mundo em San Telmo, comprando um casaco da década de 1930, em meio a tantas bugigangas... Saudade de descobrir um restaurante que já foi farmácia e ter o melhor almoço da vida. Saudade também da cantina italiana. E dos argentinos. Dançarinos de tango. Torcedores de futebol. Taxistas em seus táxis cheios de estilo, que nos davam balinhas e mapas e ainda alertavam sobre os perigos da cidade. Perigos que felizmente não vimos. Ao invés disso, vimos um cemitério fazer vezes de museu. E vimos museus. E tomamos as melhores cervejas. E falamos com o Brasil de cabines telefônicas que se metiam em mercadinhos... Saudade de me meter em mercadinhos. Saudade do colorido do Caminito. E de entrar pela primeira vez em um estádio de futebol. E dos preços, que saudade dos preços! E dos cafés, e dos churros, e do doce de leite. E da Florida. Do croissant do café da manhã. Saudade do Teatro Colón, com sua história. E da história daquela cidade inteira, com seu Café Tortoni e seu moinho. Especialmente, saudade do tempo de Buenos Aires... Do tempo que as pessoas têm para deitar ou se sentar em praças, e cochilar, e conversar, ou simplesmente olhar o mundo, parar. Que tempo é esse que não vejo por aqui onde tudo corre, onde as pessoas correm? Que tempo é esse que não passa? Não passa!? Passa... E que pena que passa. Porque se não passasse, não estaria agora sofrendo de saudade da cidade na qual espero morar algum dia.